Duas geladeiras da mesma faixa de preço, lado a lado na loja. Uma tem milhares de reclamações registradas em sites de reputação. Na outra, algumas centenas. Parece óbvio qual escolher, e é justamente aí que muita gente erra na compra.
Volume de reclamação, sozinho, mede tamanho de mercado, não qualidade. A marca que mais vende no Brasil sempre terá mais gente insatisfeita em números absolutos, porque tem mais gente comprando. A pergunta que o consumidor precisa fazer é outra: entre as pessoas que reclamaram, quantas foram atendidas, em quanto tempo, e com que resultado.
Esse é o ponto de partida para entender o que as avaliações de consumidores dizem sobre geladeiras, e o que elas não dizem.
O que a nota de reputação mede de verdade
Plataformas como o Reclame Aqui calculam a nota de uma empresa a partir de quatro fatores: percentual de reclamações respondidas, percentual de casos que o consumidor considerou resolvidos, nota média que o consumidor dá ao atendimento e proporção de pessoas que voltariam a comprar. A quantidade de reclamações não entra na fórmula.
Isso muda a leitura. Uma marca com 10 mil queixas e 97% de resposta pode ter nota mais alta do que uma marca com mil queixas ignoradas. A nota fala sobre pós-venda, sobre o que acontece depois que o produto apresenta problema, e não sobre a frequência com que o problema aparece.
Em apurações feitas por levantamentos da imprensa especializada ao longo de 2024 e 2025, as principais fabricantes de refrigeradores no Brasil ficaram em faixa parecida, entre 8 e 9 pontos em 10, com selo de reputação máxima na maior parte dos casos. Electrolux, Brastemp, Consul, LG, Panasonic e Midea alternaram posições dentro dessa faixa dependendo do período analisado.
A exceção recorrente foi a Samsung, cujo perfil dedicado a eletrodomésticos aparecia sem resposta às reclamações, o que derruba a classificação mesmo com produto bem avaliado em outros critérios.
Esses números mudam a cada semestre. O que se mantém é o padrão: as grandes marcas respondem, e a diferença entre elas está no detalhe da experiência, não em um abismo de qualidade.
Quem consulta a plataforma deve olhar a nota do período mais recente e, se possível, filtrar pela categoria refrigerador, porque a reputação geral de uma fabricante inclui fogão, lavadora e micro-ondas, produtos com histórico bem diferente.
O defeito que mais aparece em toda marca
Quando se olha o conteúdo das reclamações, em vez do número, a repetição chama atenção. “Não gela” é a categoria mais registrada em praticamente todas as fabricantes. Depois vêm assistência técnica, produto com defeito, má qualidade, barulho excessivo e vazamento de gás.
A ordem quase não muda de uma marca para outra. Isso sugere que o problema de refrigeração não é exclusividade de um fabricante, e sim uma característica do produto. Compressor, sensor de degelo e placa eletrônica são os componentes que mais falham em geladeiras modernas, e todas as marcas usam peças de fornecedores parecidos.
O que muda entre elas é o tempo até a peça chegar, o custo da visita técnica fora da garantia e a facilidade de encontrar assistência autorizada na cidade do consumidor. Uma marca com rede ampla no interior resolve o “não gela” em uma semana. Outra, com poucos pontos de atendimento, leva um mês, e a família fica sem geladeira nesse intervalo.
Por que a linha branca concentra queixas
O Idec, Instituto de Defesa do Consumidor, aponta há anos que celulares, eletroeletrônicos e eletrodomésticos da linha branca estão entre os maiores responsáveis por demandas não resolvidas no país. Os motivos listados pelo instituto são sempre os mesmos: defeito, questões de garantia, falta de assistência técnica e descumprimento do prazo de entrega.
Geladeira tem um agravante em relação a outros produtos da categoria. Ela não pode ficar parada esperando conserto. Uma televisão quebrada incomoda; uma geladeira quebrada estraga comida e obriga a família a comer fora ou improvisar com isopor. Por isso a tolerância do consumidor com a demora é menor, e a reclamação vem mais rápido e mais dura.
Quem procura uma marca de geladeira que dá menos defeito costuma chegar a comparações entre fabricantes que cruzam esses dois lados: a taxa de falha relatada e a capacidade de resposta. Juntas, as duas informações dizem mais do que qualquer ranking isolado.
A etiqueta do Inmetro mede outra coisa
Há um segundo tipo de avaliação, que não vem do consumidor e sim de laboratório. A etiqueta do Programa Brasileiro de Etiquetagem, do Inmetro, classifica os refrigeradores de A a G pelo consumo de energia. Modelos com selo Procel A são os mais eficientes da categoria.
Esse dado é objetivo e não muda com a opinião de ninguém. Mas ele mede consumo, não durabilidade. Uma geladeira classe A pode dar defeito no segundo ano e uma classe C pode durar quinze anos. Os dois indicadores precisam ser lidos em separado.
Na prática, a etiqueta serve para calcular o custo mensal de uso. Uma geladeira duplex frost free consome perto de 57 kWh por mês em funcionamento contínuo, segundo a tabela de consumo médio do Procel.
Ao longo de dez anos, a diferença entre uma classe A e uma classe C na mesma faixa de capacidade pode passar de mil reais na conta de luz. Isso entra na conta de qual modelo tem a melhor avaliação, mas de um jeito que a maioria das pessoas ignora na loja.
Como os consumidores avaliam na prática
As avaliações mais úteis costumam estar nas lojas online, nos comentários de quem já comprou o modelo específico, não a marca. A mesma fabricante pode ter uma linha elogiada e outra cheia de queixas, e a nota geral esconde essa diferença.
Alguns padrões se repetem nos comentários bem avaliados. Silêncio de funcionamento aparece com frequência em modelos com compressor inverter. Distribuição de frio uniforme, sem congelar verdura na gaveta de baixo, é outro elogio recorrente. Porta que fecha sozinha e gavetas que deslizam sem travar completam a lista do que o consumidor nota no dia a dia.
Nas avaliações negativas, além do não gela, pesa o acabamento. Pintura que descasca, porta de inox que mancha e prateleira de vidro que trinca aparecem em modelos de todas as faixas de preço. São problemas que não param a geladeira, mas que corroem a percepção de qualidade ao longo dos anos.
Vale observar também a data dos comentários. Modelo lançado há seis meses só tem avaliação de quem acabou de comprar, e a maioria dos defeitos de geladeira aparece entre o segundo e o quinto ano.
Modelos com três ou quatro anos de mercado têm histórico mais honesto. Se o modelo saiu de linha, os comentários continuam no ar e servem de referência para a linha que o substituiu, já que fabricantes costumam manter o mesmo compressor e a mesma placa por várias gerações.
O que fazer com tudo isso na hora de comprar
O caminho mais confiável cruza quatro fontes. Começa pela nota de reputação da marca, para saber se ela responde quando algo dá errado. Passa pelo conteúdo das reclamações do modelo escolhido, para ver se o defeito mais comum é aceitável, e pela etiqueta do Inmetro, para estimar o custo de uso.
Termina na rede de assistência técnica da cidade onde a geladeira vai ficar, que é o dado mais esquecido e o que mais pesa quando o problema aparece. Uma consulta rápida ao site do fabricante mostra quantas autorizadas existem em um raio de 100 quilômetros. Em capitais isso raramente é problema. No interior, define se o conserto leva dias ou semanas.
Nenhuma marca é imune a defeito. As avaliações dos consumidores não elegem uma vencedora, e sim mostram quais fabricantes tratam o problema como parte do negócio e quais deixam o cliente sozinho. Essa é a diferença que aparece nos números, e é ela que deveria orientar a escolha.
