Saúde mental dos professores: quem cuida daqueles que dedicam a vida a ensinar?

Por Douglas Silvano — Professor de Educação Física — CREF nº 040024-G/SC

A saúde mental dos professores precisa ocupar um espaço permanente nas discussões sobre educação pública e valorização profissional.

A rotina docente envolve responsabilidades que ultrapassam a transmissão de conhecimentos, incluindo planejamento, avaliação, acompanhamento dos estudantes e diferentes exigências institucionais.

Como professor de Educação Física, acredito que compreender os desafios emocionais da profissão é fundamental para construir ambientes escolares mais saudáveis.

Entretanto, cuidar de quem ensina não pode depender exclusivamente de iniciativas individuais.

É necessário reconhecer os fatores relacionados ao trabalho e desenvolver políticas públicas capazes de oferecer prevenção, acolhimento e condições adequadas para o exercício do magistério.

A saúde mental dos professores precisa deixar de ser um assunto secundário

A profissão docente exige conhecimentos específicos, responsabilidade pedagógica e capacidade de lidar com diferentes situações humanas.

Além de organizar atividades e acompanhar a aprendizagem, professores participam de processos de convivência, mediação de conflitos e comunicação com famílias e gestores escolares.

Essas responsabilidades fazem parte da complexidade do trabalho educacional.

Entretanto, considero importante reconhecer que determinadas condições de trabalho podem representar fatores de risco para a saúde mental, especialmente quando existem exigências excessivas, ausência de apoio institucional ou dificuldades persistentes na organização das atividades profissionais.

A Organização Mundial da Saúde (OMS), em suas diretrizes sobre saúde mental no trabalho publicadas em setembro de 2022, destaca a importância de identificar riscos psicossociais e desenvolver intervenções organizacionais para proteger os trabalhadores.

Na minha visão, essa orientação também precisa fazer parte das discussões sobre a profissão docente.

Não podemos considerar o sofrimento emocional uma consequência inevitável de ensinar, nem imaginar que a dedicação individual seja suficiente para enfrentar problemas relacionados à organização do trabalho.

Reconhecer a importância social dos professores significa também compreender que são profissionais que necessitam de condições adequadas para desenvolver suas atividades, preservar sua saúde e manter uma relação equilibrada entre responsabilidades profissionais e vida pessoal.

O que as pesquisas revelam sobre o estresse e o bem-estar docente?

A preocupação com a saúde mental dos professores não está fundamentada apenas em percepções individuais. Pesquisas internacionais apresentam informações relevantes sobre as condições de trabalho e os fatores que podem contribuir para situações de estresse profissional.

A Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (Talis) de 2024, coordenada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), identificou que aproximadamente 21% dos professores brasileiros dos anos finais do ensino fundamental avaliados relataram sentir muito estresse em seu trabalho.

O levantamento também apontou que 16% desses profissionais consideravam que o trabalho afetava negativamente sua saúde mental em grau elevado. Na média dos países da OCDE, esse último percentual foi de aproximadamente 10%.

Esses resultados são importantes porque demonstram que as condições profissionais merecem atenção específica. Entretanto, considero necessário esclarecer que a pesquisa utiliza respostas fornecidas pelos próprios participantes e não representa um diagnóstico clínico de transtornos mentais.

As diferentes fontes de pressão sobre os professores

A Talis 2024 também identificou fatores frequentemente associados ao estresse profissional entre os docentes brasileiros dos anos finais do ensino fundamental.

De acordo com os resultados divulgados pela OCDE, 66% dos professores desse grupo apontaram a responsabilidade pelos resultados dos estudantes como uma fonte significativa de estresse. A manutenção da disciplina em sala de aula foi mencionada por 64%, enquanto o excesso de atividades de correção apareceu nas respostas de 60% dos participantes.

Na minha avaliação, esses indicadores demonstram a necessidade de observar como as responsabilidades pedagógicas são organizadas e quais condições estão disponíveis para que os profissionais consigam desempenhá-las adequadamente.

Também considero importante reconhecer que os resultados da pesquisa não podem ser utilizados para afirmar que todos os professores brasileiros enfrentam as mesmas dificuldades. As realidades profissionais variam conforme a etapa de ensino, a rede, o vínculo de contratação e as características das instituições.

A sobrecarga de trabalho pode comprometer o equilíbrio entre profissão e vida pessoal

Uma das questões que considero relevantes no debate sobre saúde mental docente é a organização da jornada profissional. O trabalho dos professores não se limita ao período de interação direta com os estudantes.

Planejamento de aulas, elaboração de materiais, correção de atividades, registros pedagógicos, reuniões e formação continuada são responsabilidades que exigem tempo e concentração. Quando essas demandas não são adequadamente distribuídas, podem contribuir para situações de desgaste e dificuldade de conciliação com outras dimensões da vida.

A pesquisa Talis 2024 identificou que professores brasileiros dos anos finais do ensino fundamental que trabalhavam em tempo integral relataram, em média, 40,3 horas semanais de trabalho total. O levantamento apontou aumento de aproximadamente 4,6 horas em relação à edição de 2018.

Entendo que esses dados reforçam a importância de discutir não apenas a quantidade de horas trabalhadas, mas também a forma como as atividades são distribuídas e as condições oferecidas para sua realização.

O direito ao descanso precisa ser respeitado

A utilização de tecnologias de comunicação modificou as relações entre escolas, professores e famílias. Plataformas digitais e aplicativos podem facilitar procedimentos administrativos, mas também exigem atenção aos limites da disponibilidade profissional.

Considero necessário que as instituições estabeleçam canais organizados de comunicação, com orientações claras sobre horários, responsabilidades e formas de atendimento.

O descanso não deve ser compreendido como ausência de compromisso com a educação. Pelo contrário, condições adequadas de recuperação e equilíbrio entre trabalho e vida pessoal fazem parte de uma organização profissional responsável.

Na minha visão, respeitar os limites da jornada docente significa reconhecer que a qualidade do ensino depende de planejamento, preparação e condições sustentáveis de trabalho.

Violência, conflitos escolares e ausência de apoio institucional

As relações de convivência representam uma dimensão importante do ambiente escolar. Professores desenvolvem suas atividades em espaços coletivos, nos quais estudantes, responsáveis, gestores e demais profissionais possuem necessidades e responsabilidades diferentes.

Conflitos podem surgir nessas relações, mas considero fundamental distinguir situações próprias da convivência educacional de episódios que envolvam ameaças, agressões, intimidação ou desrespeito à integridade dos profissionais.

De acordo com os indicadores da Talis 2024 disponibilizados pela OCDE, 46,6% dos professores brasileiros dos anos finais do ensino fundamental relataram que situações de intimidação ou abuso verbal por estudantes constituíam uma fonte de estresse profissional.

Esse percentual não deve ser interpretado como a proporção de docentes que sofreram determinado episódio de violência, mas como uma medida da percepção de estresse relacionada a essas situações.

A escola precisa possuir mecanismos de proteção

Acredito que o enfrentamento de conflitos exige protocolos institucionais, orientação aos profissionais e medidas de prevenção que respeitem os direitos de todos os envolvidos.

A responsabilidade pela construção de um ambiente seguro não pode ser atribuída exclusivamente ao professor. Direções escolares, secretarias de Educação e serviços especializados possuem papéis importantes na organização de procedimentos e no atendimento de situações que exigem intervenção.

Também considero necessário evitar abordagens que tratem estudantes e famílias como adversários dos educadores. A construção de relações respeitosas exige diálogo, limites claros e atuação institucional adequada.

Uma escola comprometida com a aprendizagem precisa garantir condições de segurança e respeito tanto para os estudantes quanto para os profissionais responsáveis por sua formação.

Esgotamento profissional e burnout: compreender antes de generalizar

O debate sobre saúde mental dos professores frequentemente envolve a expressão burnout, utilizada para descrever um fenômeno relacionado ao estresse crônico no ambiente profissional.

A Organização Mundial da Saúde, ao apresentar a Classificação Internacional de Doenças em sua 11ª revisão, descreve o burnout como um fenômeno ocupacional associado ao estresse crônico no trabalho que não foi administrado de maneira eficaz.

Segundo a OMS, ele envolve três dimensões: sensação de esgotamento, distanciamento mental ou atitudes negativas em relação ao trabalho e redução da eficácia profissional percebida. A organização esclarece que o burnout não é classificado, na CID-11, como uma condição médica independente.

Entretanto, considero importante evitar que qualquer manifestação de cansaço ou insatisfação seja automaticamente identificada como burnout. O diagnóstico diferencial e a avaliação de sintomas precisam ser realizados por profissionais de saúde habilitados.

Cuidar da saúde mental não pode ser uma responsabilidade exclusivamente individual

Atividades físicas, descanso, acompanhamento profissional e hábitos saudáveis podem contribuir para o bem-estar, conforme as necessidades de cada pessoa. Entretanto, acredito que essas medidas não substituem a necessidade de enfrentar problemas relacionados às condições de trabalho.

Não seria adequado recomendar apenas que os professores desenvolvam maior capacidade de resistência emocional enquanto permanecem expostos a situações organizacionais que poderiam ser prevenidas ou modificadas.

Na minha visão, a prevenção exige observar a distribuição das responsabilidades, a qualidade das relações profissionais, o apoio institucional e a existência de serviços adequados de atenção à saúde.

A busca por atendimento psicológico ou médico também precisa acontecer sem estigmatização, respeitando a privacidade e a autonomia dos profissionais.

A gestão escolar possui responsabilidade na construção de ambientes saudáveis

A organização do trabalho influencia diretamente as relações profissionais dentro das instituições de ensino. Por esse motivo, considero importante que gestores escolares observem não apenas os resultados pedagógicos, mas também as condições necessárias para o desenvolvimento das atividades docentes.

Planejamento adequado, comunicação transparente, definição de responsabilidades e participação dos profissionais nas decisões podem contribuir para ambientes de trabalho mais organizados.

As diretrizes da OMS sobre saúde mental no trabalho, publicadas em 2022, incluem recomendações relacionadas a intervenções organizacionais, capacitação de gestores, apoio aos trabalhadores e estratégias de retorno ao trabalho após afastamentos por questões de saúde.

Essas orientações demonstram que a prevenção não deve se limitar à identificação de problemas individuais. A organização institucional também precisa participar da construção das soluções.

Escutar os professores é parte da prevenção

Acredito que os profissionais precisam encontrar canais adequados para apresentar preocupações relacionadas às suas condições de trabalho.

Reuniões organizadas, mecanismos de escuta e procedimentos de acompanhamento podem contribuir para identificar situações que merecem atenção, desde que sejam desenvolvidos com respeito à privacidade e sem exposição indevida.

Também considero importante que a gestão escolar reconheça os limites de sua atuação. Diretores e coordenadores pedagógicos não devem substituir profissionais especializados em saúde mental.

Sua responsabilidade envolve organizar o ambiente de trabalho, identificar necessidades institucionais e encaminhar situações aos serviços competentes quando necessário.

A legislação brasileira reconhece a importância da atenção psicossocial nas escolas

O cuidado com a saúde mental da comunidade escolar também passou a receber atenção específica na legislação brasileira.

A Lei nº 14.819, de 16 de janeiro de 2024, instituiu a Política Nacional de Atenção Psicossocial nas Comunidades Escolares, estabelecendo diretrizes para a articulação entre educação, saúde e assistência social.

A legislação inclui expressamente professores, estudantes, demais profissionais e responsáveis entre os integrantes da comunidade escolar contemplados pela política.

Entre seus objetivos estão a promoção da saúde mental, a ampliação do acesso à atenção psicossocial, a formação de profissionais e o desenvolvimento de ações de prevenção à violência.

Na minha avaliação, esse reconhecimento representa um avanço importante na compreensão de que o ambiente escolar precisa ser analisado de maneira integrada.

Serviços especializados e articulação entre políticas públicas

Outra legislação relevante é a Lei nº 13.935/2019, que dispõe sobre a prestação de serviços de psicologia e serviço social nas redes públicas de educação básica, por meio de equipes multiprofissionais.

A atuação desses profissionais pode contribuir para compreender situações relacionadas às necessidades educacionais e às relações sociais e institucionais. Entretanto, sua presença não significa que as escolas devam funcionar como serviços clínicos de atendimento individualizado.

Acredito que o fortalecimento dessas políticas exige planejamento, financiamento e articulação com o Sistema Único de Saúde e a assistência social.

Também é importante distinguir a existência de uma previsão legal de sua efetiva implementação. A disponibilidade de equipes, serviços e procedimentos pode variar entre redes e territórios, exigindo acompanhamento dos órgãos responsáveis.

Saúde mental docente também deve fazer parte das políticas de valorização profissional

A valorização dos professores precisa considerar que a saúde e as condições de trabalho estão diretamente relacionadas ao exercício da profissão.

A Lei nº 14.817/2024, que estabelece diretrizes para a valorização dos profissionais da educação escolar básica pública, contempla condições de trabalho relacionadas à dignidade profissional, à segurança e à organização das atividades docentes.

Essas disposições reconhecem que a qualidade do processo educativo depende também das condições oferecidas aos profissionais.

Em maio de 2026, entrou em vigor a nova redação do capítulo 1.5 da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), incorporando expressamente a consideração dos fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho no gerenciamento de riscos ocupacionais.

A aplicação das Normas Regulamentadoras depende do campo de incidência previsto na legislação, sendo necessário distinguir os vínculos regidos pela CLT dos regimes estatutários e das normas específicas aplicáveis aos servidores públicos.

Prevenção precisa integrar o planejamento educacional

Na minha visão, as secretarias de Educação podem desenvolver diagnósticos sobre as condições de trabalho, organizar procedimentos de prevenção e estabelecer mecanismos de acompanhamento das necessidades dos profissionais.

Medidas como revisão de processos administrativos, organização da jornada, prevenção à violência e fortalecimento dos canais institucionais de apoio merecem atenção.

Entretanto, considero importante que essas iniciativas sejam avaliadas com critérios técnicos, sem pressupor que uma única medida seja suficiente para resolver todos os problemas.

As políticas de saúde mental precisam respeitar a legislação, as responsabilidades dos gestores e as particularidades das redes de ensino.

Quem cuida dos professores também contribui para o futuro da educação

Acredito que a discussão sobre saúde mental dos professores precisa ultrapassar campanhas ocasionais e manifestações simbólicas de reconhecimento.

Os profissionais da educação exercem atividades que envolvem conhecimento, planejamento, responsabilidade e relações humanas. Essas características fazem parte do trabalho docente, mas precisam ser acompanhadas de condições institucionais capazes de favorecer seu desenvolvimento.

Não considero adequado apresentar o sofrimento emocional como uma consequência inevitável da profissão, assim como não acredito que todos os professores enfrentem as mesmas dificuldades.

A realidade educacional brasileira é diversa, e as políticas públicas precisam reconhecer diferenças entre redes, etapas de ensino, vínculos profissionais e condições locais.

Entretanto, os dados apresentados pela OCDE demonstram que o estresse e seus impactos percebidos sobre a saúde representam questões relevantes para parte dos profissionais.

Diante disso, considero fundamental que governos e instituições de ensino discutam estratégias de prevenção, acolhimento e organização do trabalho baseadas em evidências.

O acesso aos serviços de saúde, a prevenção à violência, a valorização profissional e a participação dos professores nas decisões educacionais são dimensões que merecem atenção contínua.

Também acredito que a comunidade escolar possui um papel importante na construção de relações respeitosas, reconhecendo que ensinar exige compromisso profissional, mas não significa disponibilidade ilimitada ou ausência de necessidades pessoais.

Como professor de Educação Física, compreendo a importância de discutir saúde de maneira ampla, considerando aspectos físicos, emocionais e sociais. Entretanto, entendo que o cuidado com o bem-estar profissional não pode depender apenas de escolhas individuais.

Cuidar da saúde mental dos professores significa reconhecer que as condições de trabalho precisam ser compatíveis com a dignidade e as responsabilidades daqueles que exercem o magistério.

Na minha visão, essa reflexão precisa orientar decisões administrativas, programas de prevenção e políticas de valorização profissional.

A educação pública depende de profissionais preparados para ensinar, mas também de instituições comprometidas com condições adequadas para que esse trabalho aconteça.

Quando discutimos quem cuida daqueles que dedicam sua vida a ensinar, considero que a resposta não deve estar limitada ao esforço individual de cada professor.

Ela precisa envolver responsabilidade institucional, acesso a serviços de saúde, políticas públicas consistentes e uma compreensão mais ampla sobre as exigências da profissão docente.

Afinal, a qualidade da educação também está relacionada à maneira como a sociedade reconhece, respeita e protege os profissionais responsáveis por desenvolvê-la diariamente.

Artigo de opinião — Douglas Silvano — CREF nº 040024-G/SC

Douglas Silvano é professor de Educação Física em Sombrio, Santa Catarina, e atua em iniciativas relacionadas a políticas públicas, à educação e ao desenvolvimento do esporte.

Créditos da imagem: https://www.pexels.com/pt-br/foto/homem-serio-grave-olhando-para-baixo-5336968/

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